Se besouro é algo

por Juliana Damazio

Um besouro entrou por engano na sala do apartamento. Moro no terceiro andar.

Ele se debate no chão, preso no espaço minúsculo que vai do sofá ao outro sofá.

Sua casca é forte e seu azar é ainda mais.

Não me comovo.

 

(DEZOITO MINUTOS MAIS TARDE)

 

Ajudei o besouro a fugir.

Antes disso se fingia de morto, o descarado. Talvez medo, talvez malício.

Se apresentava. Por isso olhei de perto.

Olhos verdes, casca marrom, patas encolhidas.

Não contei quantas patas. Não me lembro de ter visto qualquer pêlo.

As asas são desenhadas com nervuras, como o esqueleto de uma folha. Improvável que possam sustentar corpo tão pesado como o de besouro.

Da janela testei. Ele deixou de ficar morto.

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