Antonin Artaud se dirige, em alguma página do Pesa-nervos, ao Doutor:

por Juliana Damazio

Doutor,
Há um ponto em que gostaria de insistir: é o da importância da coisa sobre a qual actuam as suas injeções; esta espécie de relaxamento essencial do meu ser, esta descida da minha estiagem mental, que não significa, como poderia crer-se, uma qualquer diminuição da minha moralidade (da minha alma moral) nem sequer da minha inteligência, mas, se se quiser, da minha intelectualidade utilizável, das minhas possibilidades pensantes, e que tem mais a ver com o sentimento que tenho do meu próprio eu, que com o que dele mostro aos outros.
Esta cristalização surda e multiforme do pensamento, que escolhe num momento dado a sua forma. Há uma cristalização imediata e directa do eu no meio de todas as formas possíveis, de todos os modos do pensamento.
E agora, Doutor, que está bem ao corrente do que em mim pode ser afectado (e curado pelas drogas), do ponto litigioso da minha vida, espero que saiba dar-me a quantidade de líquidos subtis, de agentes especiosos, de morfina mental, capazes de elevar o meu abatimento, de equilibrar o que cai, de reunir o que está separado, de recompor o que está destruído.
O meu pensamento saúda-o.

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