Nossa casa

por Juliana Damazio

     

Evgen Bavcar

 

Vejo você, distraído, percorrer com as pontas dos dedos a poeira do século passado. Ela cobre tudo o que nos rodeia, nossa mobília, nossas fotos, a comida que esquecemos de guardar e que antes que percebêssemos se tornou intragável. Teu gesto descuidado tornará em pouco tempo tuas mãos imundas e por mais maculadas que as tenha jamais tornará qualquer um desses objetos pelo qual passeia mais limpo, mais claro ou menos antigo, jamais recolherá de qualquer canto toda a  poeira que o assombra. Estes vestígios que cobrem tudo estão aqui há mais tempo do que podemos supor.  Dividimos a casa em que habitamos com os nossos fantasmas e nunca nos esquecemos de deixar aos pés da porta um prato de comida preparado com esmero para que eles se alimentem e não nos abandone. Bem alimentados esses companheiros nunca definham por completo e gastam seus dias desprendendo a poeira de seus corpos por toda a nossa casa. O que nos liga a essas criaturas é o afeto que nutríamos por eles quando eram gente como somos agora e faziam parte dos nossos dias e suas carnes eram quentes e podíamos enfiar as mãos em seus cabelos. Concentrada, tento limpar essa poeira fina que se renova a cada dia e destarte meu esforço ela se infiltra pelas frestas de nossas gavetas, tornando vãs nossas tentativas de proteger nossos objetos de estima. Em pouco tempo tudo se assemelhará muito mais a ruínas que a lugar habitável e caso alguém ouse espiar através dos vidros das janelas terá certeza de não haver vida por aqui há muitos anos. Sufocados pelo mofo que descasca as paredes suplicaremos a esses que passam que nos tirem daqui e os veremos apertar os passos, apavorados com a visão de nós, fantasmas que nos tornaremos um do outro.

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