Um sonho na noite de 17 de março de 2008

por Juliana Damazio

Obra de James Jean

 

“Cavalos como estes, fortes e livres, me fazem lembrar da minha infância.”

Quando abri os olhos estas palavras ainda ecoavam em mim. Infância, que chegou a escapar dos meus lábios sonolentos, se repetia infinitamente, soando aos meus ouvidos como se pronunciada em língua estrangeira. Seu som perturbador impedia que a luz lúcida da manhã invadisse minha vida ainda em repouso e me empurrasse para o cotidiano abarrotado de lógica e tédio. Para continuar no sonho eu pedia com delicadeza ao meu corpo: “continue ainda, mais um pouco apenas, por favor não saia do sonho, permaneça, prolongue”. Como no gesto de uma respiração profunda eu tentava percorrer uma linha frágil sem rompê-la, a linha que ainda me ligava ao sonho em que uma competição de saltos de cavalos era assistida por distintas figuras. Homens com cabeça de coelho e mulheres com cabeça de pombo. Os cavalos pulavam livres, sem condutor, em um imenso campo gramado. A frase foi dita logo que um cavalo branco e forte saltou. Cavalos fortes e livres me lembram a minha infância. Todos que estavam à minha volta riram destas palavras, inclusive o cavalo. Eu também ri,  por medo de parecer mal educada. Apareceu então um pássaro gigante, avalovara, um pássaro feito de pássaros, e todos, eufóricos com a possibilidade de pegar o pássaro, abandonaram a competição. O pássaro se refugiou nos meus braços e com um grito pedi desculpas por ter sido a escolhida: “Eu não queria ter sido escolhida!” O calor das minhas mãos matou o pássaro e novamente todos riram, mas eu não. Um grupo ameaçador se juntou à minha volta e tive que fugir por um caminho de barro para dentro de um bosque. Quando me senti segura da perseguição várias crianças me cercaram, dançando, brincando e me obrigando a ir cada vez mais para dentro do bosque. Para dentro da minha infância, foi o que pensei enquanto sonhava. Quando me vi no centro do bosque, abandonada pelas crianças na escuridão úmida, acordei. Profundamente ligada às sensações do sonho desejei como nunca percorrer as escuridões do bosque e me concentrei para permanecer, para ter na língua o gosto que eu sentia antes, quando eu estava dentro da palavra infância e não a compreendia, quando o mundo ainda não era um ordenado consciente de explicações, motivos e negociações. Esforço vão. Meus pés excessivamente atentos já pisavam o chão do lado de cá da fronteira, o lado em que todos os dias separamos e evitamos as matérias oníricas, deixando ao alcance das nossas mãos somente os objetos secos.

 

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