25 de Fevereiro de 2008

por Juliana Damazio

Uma dessas chuvas de verão arrasa parte da cidade enquanto uma dessas dores de cabeça me arrasa por inteira. O demônio no meio da rua, o redemoinho dentro de mim, ambos provocando uma compreensão vertiginosa dos fatos, forçando lembranças de um passado bem recente. O som grita a linda música oferecida pelas mãos que eu conheço tão bem, do tempo tido como eterno no início da paixão.  Eu por volta e meia me vejo voltando ao ponto de partida. Vejo-me perdida entre ruas conhecidas, falando sozinha, dividida entre o desejo e a dúvida. Quem sabe parto amanhã para a ilha de Madagascar, ou fico, errando e aprendendo, criando raízes, carregando a estranha sensação de me desconhecer cada vez mais destarte o grande esforço para atingir meu centro vivo. Paro, pondero, peço em silêncio e com fervor a grande desculpa que alivie meus erros, minha imaturidade, minhas indecisões. Em meio à velocidade agressiva dos carros busco com meus olhos cansados pequenas delicadezas que me façam compreender o motivo de meus passos desatinados, mas encontro um velho louco e tonto que assim como eu pragueja sozinho, que assim como eu busca uma solução para suas tragédias mínimas ou quem sabe para sua vida impossível. Se sua boca desdentada me dissesse ter eu mil anos eu acreditaria, se me dissesse ser eu tão antiga que já nem posso mais me lembrar das minhas dimensões e da minha potência eu acreditaria, mas se ele me perguntasse meu nome eu não saberia dizer, Juliana intangível, Juliana desproporcionada, Juliana impronunciável. As palavras me escapam como uma convulsão, sem um nexo que convença a qualquer um, balbúrdias incontroláveis, é isso o que me escapa e não posso evitar. Molhada da cabeça aos pés, que há muito estão descalços, toco a água imunda e me lembro de antigas brincadeiras da infância e sinto que hoje eu me deixaria ir como um barquinho descontrolado dentro da enxurrada, girando girando girando girando sem saber onde parar, contando com a impossibilidade de desembocar no mar.  Bebo as gotas da chuva como quem bebe a  vida e ofereço esse ritual àquela pessoa que me ensinou tudo o que sei e dentro de mim danSa um estrela bailarina e dentro de mim explode o caos e dentro de mim algo grita muito alto.

Aos que passam e me fitam com cara perplexa, são muitos ou todos, grito que eu queria estar nua, aos que param e ouvem com atenção a louca gritar, digo com suavidade e desespero que se eu for não vou voltar…

Anúncios