Trapeiro ou poeta?

por Juliana Damazio

 

estamira22

Baudelaire fala dos trapeiros:

“Aqui temos um homem – ele tem de recolher na capital o lixo do dia que passou. Tudo o que a cidade grande jogou fora, tudo o que ela perdeu, tudo o que desprezou, tudo o que destruiu, é reunido e registrado por ele. Compila os anais da devassidão, o cafarnaum da escória; separa as coisas, faz uma seleção inteligente; procede como um avarento com seu tesouro e se detém no entulho que, entre as maxilas da deusa indústria, vai adotar a forma de objetos úteis ou agradáveis”

O mesmo que Benjamin fala de Baudelaire:

“Essa descrição é apenas uma dilatada metáfora do comportamento do poeta segundo o sentimento de Baudelaire. Trapeiro ou poeta – a escória diz respeito a ambos; solitários, ambos realizam seu negócio nas horas em que os burgueses se entregam ao sono; o próprio gesto é o mesmo em ambos. Nadar fala do andar abrupto de Baudelaire; é o  passo do poeta que erra pela cidade à cata de rimas; deve ser também o passo do trapeiro que, a todo instante. se detém no caminho para recolher o lixo em que tropeça.”

Para mais:

O vinho do trapeiros, de Charles Baudelaire

Paris do Segundo Império – A modernidade, de Walter Benjamin

Estamira, de quem tomei emprestada a fotografia, de Marcos Prado

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